E finalmente chega o dia tão esperado com destino ao Chile. Malas prontas e pesadas, euforia, nervosismo, vôo. Despedida estilo enterro da novela das oito, só faltava o lencinho da Giuliana de Terra Nostra. Enfim, estava doida pra deixar meu país canarinho e me aventurar pelo país mais delgado do continente. Experiência única, sem dúvidas, e creio que amadureci bastante com relação a passeios, hotéis e check-ins.Que aliás, me senti a turista mulçumana com bombas caseiras pelo corpo quando cheguei lá, quase dizendo para os chilenos: " Muchacho,não precisa se preocupar, isso é gordura mesmo!", porque era tanto controle de segurança, polícia federal, papéis que chegava a cansar a "beleza" de qualquer feia. No avião aconteceram coisas peculiarmente comoventes, que se eu tivesse uma câmera, filmaria. Na ida, o avião era daqueles gigantes, provavelmente um boing, e a turbulência foi algo que deixou minha alma "cagada",pra ser fisicamente foi pouco.Era algo que putz, arrepiava até a célula capilar e conseguia me mobilizar a fazer várias perguntas: por que não tem pára-quedas no avião mas tem uma bóia embaixo do banco? Por acaso os aviões só caem em alto mar? Pois bem, graças a Deus não aconteceu nada e correu tudo bem.Depois já mais calma e com o espírito levemente travesso, consegui tirar proveito das situações engraçadas e ria num gracejo só. Meu avião parecia mais uma colônia de férias recheada de gringos, do que um simples vôo com brasileiros cariocas comuns.Falando em gringos, tinha um coral americano totalmente bizarro perto da gente.Pude reparar que a epidemia "Songamonga" não só se encontra nos nossos queridíssimos conterrâneos brasileiros, mas também nos americanos.Vai ver que isso foi uma herança cultural que a gente adquiriu ao longos dos tempos. A diversão deles era acender e desligar a luzinha acima de suas cabeças e dançar o exercício físico do ratinho em suas mini-televisões. Coisa que o passageiro detrás ficava puto e o da frente também por não ficarem quietos nos seus assentos.E é lógico, que eu e minha amiga não poderíamos de ter apreciado sem umas boas gargalhadas e comentários pitorescos. Enfim, após cinco horas de puro entretenimento, chão a vista! E nos deparamos com a bela cidade de Santiago. Iluminada e fria. Muito fria, diga-se de passagem. As diferenças daqui do Rio com a capital do Chile são gritantes, como ruas bem asfaltadas e limpíssimas, sem dúvidas a "Europa Latina" e uma cidade apesar de populosa e urbanizada, sem grandes problemas com a violência. A política é sólida e eficaz e eles prezam pela educação. Bem igual aqui, né? Mas mesmo com isso tudo,as incríveis vantagens, eu não troco meu conforto por nada. Está aí a palavra, conforto.Por mais que lá fosse mais organizado, mais tranqüilo, o padrão de vida melhor e mais barato, eu não troco meu Rio caloroso e caótico por nada. Porque aqui é inacreditavelmente menos poluído, menos frio e eu sou mais feliz por isso. A sensação que eu tive dos dias que eu fiquei, foi como se eu estivesse perdendo as lembranças do meu país, os lugares,as músicas, o idioma.Percebi que o ser humano é extremamente dependente e condicionado a retornar ao seu local de origem. Que depois de um certo tempo, você começa a sentir falta dos hits funqueiros, da MPB brasileira e começa a entender que ouvir música latina, especificadamente mexicana após 5 minutos durante a comida é uma tortura. Que quando você escuta uma música da Daniela Mercury em plena loja de departamento pessoal, você borbulha de alegria e tem vontade de gritar que essa música é brasileira! Que não ver comercial de novela dá tristeza, e não dar boa noite ao Willian Bonner causa insônia. E que ao voltar para suas aulas de inglês você involuntariamente começa a falar "SÍ" E "Ya" sem parar e percebe o quão difícil fica para dizer "Yes". Sei lá, é uma sensação que não sei explicar, só quem já viajou para longe sabe e reconhece isso. Não que eu não queira viajar mais, é claro que eu quero, mas Brasil é Brasil, apesar dos pesares, apesar dos percalços. Que o português é um idioma sonoro neutro, sem aquele ovo ( ou huevo) na boca. Tem uma frase bastante conhecida que resume o que eu quero dizer: " O Brasil é um país maravilhoso, de terra fértil, clima inigualável entre outras coisas mais, o que estraga o Brasil é o próprio povo que nele habita."E eu infelizmente tenho que concordar com isso, pois nós tínhamos tudo para sermos os melhores, mas nos contentamos com bolsa família, bolsa escola e criança esperança.
Tenha um bom final de semana;
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